Teorias e Fotografias
Aqui não se passa nada, mas podem entrar e ficar à vontade.
20 de Maio de 2008

Há no fundo de cada um de nós um ser solidário capaz de tudo para ajudar o próximo, no entanto no nosso dia a dia, todos nos deparamos com situações às quais viramos a cara simplesmente para não admitirmos que elas existem.

Estou a falar de pobreza, sim, mas não daqueles pedintes descarados que habitualmente vemos pelas ruas da Baixa de Lisboa com crianças adormecidas ao colo, que já têm idade para andar na escola, ou daqueles que de tantos tiques teatralizarem já parecem verdadeiros doutores da pedinchice. Também não estou a falar daqueles que tocam acordeão, com cãezitos cantadeiros, que pela graça e pelo esforço até merecem a moedita.

Estou a falar das centenas de anónimos com que nos cruzamos no dia a dia, que não têm dinheiro para comprar mais do que um pão, mas que sobrevivem e que não se manifestam, da sua boca não se ouve uma palavra, mas dos seus humildes olhos consegue-se ler a fome que lhes vai na alma.

Sou daquelas que habitualmente passo imune às pedinchices, muitas das vezes porque as mesmas se tornaram um hábito, e para nós uma obrigação de dar, creio que a obrigação é do estado e não do cidadão comum. O estado português é padrasto para quem dedicou a sua vida ao trabalho a troco de uns tostões e agora recebe uma reforma que mais parece uma pensão de sobrevivência e que mesmo assim não fora a ajuda de algumas almas boas, não daria sequer para sobreviver.

À minha porta costuma bater uma senhora, que tem idade para ser minha mãe, cujo nome eu desconheço e que apelido de "A pobrezinha", não pede moedas, mas comida, ou roupas, ao longo dos tempos criam-se laços de amizade com quem ao longo do tempo nos vai batendo á porta pedindo ajuda para uma vida um pouco melhor. Sei que em tempos foi costureira, mas a deformação das mãos por causa das artroses não lhe permitem já trabalhar. Esteve muito tempo sem aparecer, tinha-me dito que ia ser operada e eu já achava que lhe tinha acontecido o pior... Voltou a aparecer, e eu fiquei feliz! Nunca lhe dei dinheiro, às vezes umas roupas usadas, uns feijões ou um pacote de arroz, sei que não é muito mas o brilho dos seus olhos dizem-me que é o bastante para fazer diferença. Nestes momentos sinto que não sendo rica, a minha ajuda contribui para uma vida melhor, tenho pena de não poder fazer mais...

Este é um tema sobre o qual se poderiam escrever milhões de palavras que ainda assim ficaria muito por dizer.

Para terminar, na  Declaração Universal dos Direitos do Homem, nº 1 do artigo 25ª diz o seguinte:

 

Artigo 25.º

1. Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença, na invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência por circunstâncias independentes da sua vontade.

 

Devo concluir que anda meio mundo distraído ou a virar a cara para o lado para não ver o que é óbvio.

 

publicado por Moira às 15:23 link do post
sinto-me: desiludida
Olá Moira!

O texto descreve uma realidade, da qual a maior parte das pessoas se alheia!. De facto há pedinchice habitual, doentia …. Viciosa!. Uma forma fácil de viver!.
Não resisto à tentação de contar uma situação que se passou comigo. Vou tentar em poucas linhas.

Então foi assim:

Bateu-me à porta um rapaz na casa dos 25 a 30 anos. Arranhou o português, ou fingiu, e pelo sotaque, deduzi que era dos países de Leste. – Tenho os filhos com fome e não tenho trabalho, peço um ajuda!. – disse ele. Condoído dei-lhe um pacote de arroz!. De cara um pouco enjoada, agradeceu!. Mas, fiquei desconfiado!. Pelos orifícios do estore da janela, segui o indivíduo com o olhar. Ao passar junto a um lote, ainda por construir e cheio de ervas altas, fez um gesto, que me pareceu óbvio. Logo que desapareceu da vista fui confirmar. E, de facto lá estava o pacote de arroz, no lote!. Peguei nele, e voltou à dispensa.

Obviamente, este só queria dinheiro!. Para quê? Sabe-se lá!......

Jcm-pq
jcm-pq a 21 de Maio de 2008 às 09:21
Caro JCM,
O pior é que por causa dessa pedinchice como forma de vida, acabamos por fechar os olhos à verdadeira pobreza, a que está encoberta e que também afecta a população portuguesa, principalmente a mais idosa.
Cumprimentos
Moira a 21 de Maio de 2008 às 12:52
Moira, assisti a minha vida inteira à minha avozinha, que era portuguesa, ajudar a uma família pobre no Brasil, com comida, roupas usadas, exatamente como você faz. Eu tentei encontrar outra forma de o fazer, vim parar em terras de África, onde tudo é difícil, sofrido, e ainda hoje tive de aturar um sujeito sem educado a me ameaçar e a escrever lá no meu blog que cá estou a encher os bolsos.
Da minha avó para cá já se passaram quatro gerações e a sensação que tenho é de que nada mudou. Isso cansa, às vezes. Dá vontade de desistir.
f. a 21 de Maio de 2008 às 15:17
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